Lembranças de uma das primeiras grandes decisões que mudaram minha vida – Luigi Benesilvi
(23/07/2023)
Ao entrar no dormitório do seminário, junto com mais uns 300 meninos em idade entre 8 a 14 anos, sentia meu coração apertado e estava compelido a tomar uma importante decisão. Estava com 11 anos de idade.
Tinha recém voltado das férias de verão e sentia muitas saudades de meus pais e meus irmãos.
Durante meu primeiro ano no seminário, minha família tinha se mudado da cidade de Espumoso, no noroeste do estado, para Porto Alegre, onde eu tinha passado as férias.
A escola onde eu estava internado era chamada de “Pré-Seminário Seráfico Santo Antônio”. Ficava no distrito de Vila Flores, na cidade de Veranópolis, no Rio Grande do Sul.

Era a escola preparatória para o Seminário Maior dos frades franciscanos, também chamados de “capuchinhos”. O prédio era novo e o terreno estava ainda pouco arborizado, mas logo na entrada tinha um campinho de futebol de terra batida.
Como de noite as coisas sempre parecem mais sombrias, decidi que se ainda estivesse assim tão deprimido pela manhã ia falar com o frade conselheiro e acabar logo com minha aflição.
De manhã bem cedinho fomos despertados pelas freiras que cuidavam dessa parte do seminário. O toque de despertar era feito pela freira enquanto caminhava entre as camas tocando uma sineta muito barulhenta. A sensação era muito ruim.
Fui ao banheiro, lavei o rosto e fiz minhas outras necessidades. De manhã o dormitório tinha um forte cheiro de urina, pois muitos meninos urinavam na cama. O dormitório tinha o formato de “L” e os mijões ficavam na parte menor do dormitório. Nós os chamávamos de “baleias”.
Fui ao refeitório fazer o desjejum, que eu odiava, pois era um prato de leite salgado e pedaços de polenta frita.
Depois do desjejum tínhamos aula até o meio-dia. Era durante esse horário que podíamos ir falar com o frade conselheiro, ir ao dentista ou ao ambulatório médico.
Como estava decidido a ir embora, logo no início da aula já pedi licença para ir falar com o frade conselheiro.

Cheguei no gabinete e o Frei Efrem perguntou o que estava me afligindo. Disse a ele que não queria mais ficar no seminário e queria ir embora. Depois de alguns minutos de conversa o frei fez uma chantagem emocional, falando que “sentia como se tivesse recebido uma facada no peito”.
Pediu que eu refletisse bem por mais alguns dias e voltasse a falar com ele, o que fiz logo na manhã seguinte, ocasião em que fui muito mais enfático que no dia anterior, batendo pé e ameaçando fugir.
Por fim, ele desistiu e falou que veria como fazer para mandar-me para casa.
Fiquei isolado e passei a dormir num quarto separado, para não “contaminar” o resto da molecada.
Alguns dias depois fui informado que eu iria de carona num caminhão que ia para Porto Alegre com um carregamento de maçãs e outras frutas.
Fui acordado de madrugada e embarcado no caminhão, cujo motorista grandalhão falava com forte sotaque italiano, o que não era de estranhar, porque a região era habitada por muitos descendentes de italianos.
Era uma madrugada muito fria, estava muito escuro e ameaçando chuva.
Eu estava sonolento, mas com o coração palpitando e cheio de vontade de ir logo embora. Estava aliviado porque a pior fase de convencimento dos frades já tinha passado.
Estava com alguma apreensão, pois agora teria que “enfrentar” meus pais ao chegar em casa “de surpresa”.
Já clareando o dia, lembro do caminhão descendo a serra gaúcha para o costado do Rio das Antas, que atravessamos numa bela ponte de arcos. A subida do outro lado da ponte era muito íngreme e o motor do caminhão fazia um ruído que parecia um gemido para subir a serra.

Fiquei pensando como tinha ido parar o seminário, o que na verdade era muito comum nas colônias italianas do Rio Grande do Sul.
No início de cada ano, os padres iam para as paróquias, onde visitavam as famílias mais numerosas, aliciando crianças para os seminários.
Minha família era composta pelos pais e 14 filhos, com a maioria trabalhando no cultivo de alimentos, cuidando de vacas leiteiras, porcos, galinhas e numa fábrica de telhas e tijolos, que meu pai tinha em sociedade com um irmão de minha mãe.
A vida não era fácil para nenhum de nós.
No meu caso, lembro que o padre falou que eu estudaria de manhã e todas as tardes ficavam livres para jogar bola, praticar outros esportes e ir comer frutas nos pomares do seminário. Seria uma grande aventura.
Voltando à viagem de retorno à minha casa.

Lá pelas 11 horas chegamos a Porto Alegre. O motorista tinha sido instruído a levar-me até a Avenida Farrapos e colocar-me num táxi, cujo ponto ficava ao lado do Hotel De Conto, que me levaria até a casa de meus pais, na Rua Secular, número 443, no Bairro Passo D’Areia (Atualmente a rua chama-se João Wallig).
Uns 20 minutos depois chegamos ao endereço indicado, o motorista pediu que eu ficasse no táxi e desceu para perguntar se era lá que minha família morava, pois teriam que pagar a corrida.
O endereço indicado era a casa de comércio de meu pai, chamada “Armazém Castelo”.
Em seguida vi meu irmão mais velho, todo agitado, vindo em direção ao táxi, gesticulando com ares de surpresa. Olhou pela janela, abriu a porta e perguntou o que tinha acontecido. Respondi que tinha vindo embora do seminário.
Ele pagou o motorista, pegou minha mala e caminhamos para dentro de casa, onde meus pais e meus irmãos vieram ver o que tinha acontecido.
Não lembro de ter havido recriminações pelo meu abandono do seminário. A família ainda tinha três filhos em outro seminário e duas filhas num convento de freiras.
Alguns anos depois, todos abandonaram essas instituições religiosas.

A decisão de abandonar o seminário consolidou minha determinação de não permanecer muito tempo em situações que estão em desacordo com minhas convicções pessoais íntimas.
A vida segue inexorável e cada decisão que tomamos repercute para o resto de nossas vidas e de nossos familiares.
Quanto mais cedo as decisões são tomadas, mais amplas são suas repercussões.
Parece que a decisão de meu pai em mudar-se para Porto Alegre, onde havia muito mais opções de vida do que no interior do estado, pode ter influenciado a decisão de todos os que abandonaram a vida religiosa.
Luigi Benesilvi
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NOTA
Decidi escrever essas memórias, em razão de dúvidas manifestadas por um dos meus irmãos, que também frequentou um seminário naquela época, sobre como havia acontecido a “debandada” dos seminaristas, da qual eu fui o precursor.
Fiquei em dúvida se só o mandaria o texto para os protagonistas ou publicaria no Blog para acesso de todos. Enfim acabei publicando mesmo.
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Obrigada por compartilhar, gostei muito de saber um pouco mais sobre a história dos meus tios e avós.
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Salve, Beneduzi! Gostei muito da sua história juvenil que já demonstrava a disposição do amigo de liderar a sua própria vida. Também muito interessante a descrição da época, dos lugares e do contexto familiar. Quatorze irmãos!!! Hoje nem dá pra imaginar.
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