Astroturf e a Manipulação de Narrativas na Mídia – Sharyl Attkisson

(13/11/2021)

Considerem o seguinte exemplo fictício, inspirado na vida real: Você está assistindo um noticiário na televisão, onde vê uma história sobre um novo estudo de uma droga chamada “Collestra”, que reduz o colesterol.

O estudo mostra ser a droga é tão eficiente, que os médicos deveriam pensar seriamente em receitá-la para adultos e até mesmo para crianças que ainda não tenham colesterol elevado.

Isso seria bom demais para ser verdade?

Como você é um cara esperto, resolve pesquisar o assunto por contra própria.

Você faz uma pesquisa no Google, verifica as redes sociais, Facebook, Twitter e outros. Pesquisa na Wikipedia, no WebMD, um site sem fins lucrativos e lê um estudo original em uma revista médica especializada.

Tudo o que leu confirma a eficácia do “Collestra”.

Aparecem alguns comentários negativos, com uma menção de possível relação potencial da droga com o câncer, mas você descarta, pois os especialistas clínicos consideram ser apenas um mito essa relação da droga com câncer. Chamam os que divulgam isso de charlatães, curandeiros e negacionistas malucos.

Finalmente, seu médico lhe diz que participou de um seminário da área e a palestra que ele assistiu confirmava a eficácia da Collestra. Ele lhe oferece algumas amostras grátis e uma receita médica da droga.

Sim, você realmente fez sua lição de casa.

Mas, e se tudo isso não for o que parece ser?

E se tudo o que você viu for uma narrativa inventada, cuidadosamente elaborada por interesses ocultos, com o objetivo de manipular sua opinião?

Uma realidade alternativa como num “Reality Show”?

A complacência da mídia, combinada com uma propaganda incrivelmente poderosa e o poder de divulgação, significa que nosso acesso à verdadeira realidade é bastante limitado.

Interesses especiais têm tempo e muito dinheiro para desenvolver novas formas de disfarçar seus verdadeiros objetivos.

Métodos secretos de “Astroturf” (originalmente é a marca de um tipo de grama artificial), são atualmente mais importantes que o tradicional “lobby” parlamentar. Existe uma inteira indústria montada para isso na capital dos Estados Unidos.

O que é o “Astroturf”?

“Astroturf” é uma perversão dos movimentos autênticos, apresentando-se falsamente como um movimento tradicional autêntico.

O “Astroturf” acontece quando interesses específicos, políticos ou corporativos, se disfarçam e publicam em blogs, criam contas falsas nas redes sociais, publicam anúncios e cartas a editores ou simplesmente tecem comentários online, para nos fazer pensar tratar-se de movimentos autênticos e independentes que estão se manifestando.

O objetivo real do “Astroturf” é passar a impressão de que existe um vasto movimento sobre um determinado assunto, a favor e contra uma agenda, quando realmente ele não existe.

O “Astroturf” busca manipular as pessoas e fazê-las mudar de opinião, fazendo com que se sintam “por fora” do assunto, quando na verdade não estão.

Um exemplo disso é o nome do clube de futebol americano de Washington, chamado “Redskins” (Peles vermelhas).

Sem tomar uma posição na polêmica, se olharmos apenas a cobertura da mídia durante o ano passado, ou observarmos nas redes sociais, vamos concluir que a maioria dos americanos consideram esse nome ofensivo e concorda que ele deve ser mudado.

Mas se eu lhe disser que 71% dos americanos acham que o nome não deve ser mudado?

Isso é mais do que 2/3 dos americanos.

Praticantes do “Astroturf” geram uma controvérsia artificial entre os que discordam deles. Atacam empresas de notícias que publicam matérias que os desagradam, informantes que denunciam falsidades, políticos que ousam questionar assuntos sensíveis e jornalistas que têm a audácia de divulgar tudo isso.

Muitas vezes, o “Astroturf” apenas lança intencionalmente tantas informações confusas e conflitantes no cenário, que nós simplesmente desistimos de acreditar em qualquer coisa, inclusive da verdade.

Para neutralizar uma divulgação da relação entre um medicamento e um efeito colateral, como a vacina e o autismo, misturam um monte de estudos pagos conflitantes, pesquisas e especialistas que confundem e relativizam os fatos.

E temos ainda a Wikipedia, o sonho de consumo dos praticantes do “Astroturf”, que se tornou realidade.

Criada originalmente para ser uma enciclopédia livre, na qual todos podiam publicar e editar, na realidade funciona de outra maneira.

Editores anônimos da Wikipedia criam e controlam páginas em defesa de seus próprios interesses. Rejeitam e distorcem edições que contrariam suas agendas. Desviam ou apagam informações, violando, aberta e impunemente, as próprias regras da Wikipedia.

São sempre superiores aos pobres ingênuos, que ainda acreditam que qualquer um pode editar artigos na Wikipedia, até descobrirem que não conseguem sequer corrigir as incorreções mais simplórias.

Tente acrescentar uma nota de rodapé ou corrigir um erro numa dessas páginas monitoradas da Wikipedia e elas somem, algumas vezes em questão de segundos, e vai perceber que sua edição foi revertida.


Em 2012, o famoso autor Philip Roth, tentou corrigir um erro de informação sobre o fato que havia inspirado a criação de um personagem de um dos seus livros, citado em uma página da Wikipedia.

Mas, por mais que tentasse, os editores da Wikipedia não lhe permitiam a correção e revertiam suas correções para a falsa informação original.

Quando o escritor finalmente conseguiu comunicar-se om alguém da Wikipedia, o que não é uma tarefa fácil e tentou descobrir o que estava acontecendo, responderam que ele não era considerado uma fonte confiável sobre as coisas dele próprio.

Algumas semanas depois, houve um grande escândalo, no qual alguns editores da Wikipedia ofereceram serviços de relações públicas, com informações manipuladas e editadas, em nome de clientes que buscavam publicidade paga, o que supostamente contraria as políticas de Wikipedia.

Tudo isso deve explicar porque num estudo que comparou doenças descritas em páginas da Wikipedia, com as pesquisas autênticas, publicadas por especialistas, as descrições da Wikipedia as contrariavam em cerca de 90% das vezes.

Talvez vocês não confiem mais totalmente no que leem na Wikipedia e nem devem mesmo confiar.

Vamos agora voltar àquele exemplo fictício do “Collestra” e tudo aquilo que você pesquisou.

No final das contas, os perfis do Facebook e Twitter, que mostravam relatos positivos, haviam sido criados e escritos por profissionais contratados pela empresa farmacêutica para promoverem a droga.

A página da Wikipedia havia sido manipulada por um editor, também pago pelo fabricante da droga.

A empresa farmacêutica também cuidou de otimizar os resultados de buscas do Google, portanto, não foi por acaso que você encontrou todos aqueles comentários positivos de entidades agindo “sem fins lucrativos”.

Eles eram, é claro, secretamente produzidos e financiados pela empresa farmacêutica.

A empresa farmacêutica também financiou aquele estudo favorável e lançou mão de seu poder de controle editorial para omitir qualquer menção ao câncer como um dos possíveis efeitos colaterais da droga.

Mais uma vez, cada um dos médicos que enalteceu publicamente o “Collestra” ou chamou de mito a relação da droga com o câncer, ou ridicularizou os críticos, chamando-os de charlatães e farsantes paranoicos, ou prestou consultoria ao governo na aprovação do medicamento, cada um desse médicos é, na verdade, um consultor pago pela empresa farmacêutica.

Quanto ao seu próprio médico, a palestra que ele assistiu, com todas aquelas avaliações positivas, foi, na verdade, como tantos outros cursos de educação médica continuada, patrocinada pela mesma empresa farmacêutica.

E ao noticiar o tal estudo positivo, a mídia não mencionou nada disso.

Tenho toneladas de exemplos pessoais, na minha vida real.

Alguns anos atrás, a pedido da televisão CBS News, investiguei um estudo, então recém-lançado pela Fundação Nacional do Sono (National Sleep Foundation), uma organização sem fins lucrativos.

Ao que parecia, as informações mencionavam que o estudo havia mostrado que somos um país com uma epidemia de insônia, da qual sequer sabíamos existir e que todos nós deveríamos perguntar aos nossos médicos sobre isso.

Algumas coisas naquilo me intrigaram.

Primeiro, reconheci a frase “pergunte ao seu médico” como sendo uma pegadinha tradicional, promovida pela indústria farmacêutica.

Elas sabem que, se conseguirem nos levar ao consultório médico para falar de uma enfermidade, é bem provável que sairemos com uma receita da mais recente droga lançada no mercado contra essa doença.

Segundo, pensei quão grave seria, de fato, uma epidemia de insônia, sobre a qual sequer sabíamos existir.

Não demorou muito ao pesquisar um pouco para descobrir que a Fundação Nacional do Sono, uma organização sem fins lucrativos, que o estudo, na verdade era apenas uma pesquisa, patrocinada por uma nova droga que estava para ser lançada no mercado, chamada “Lunesta”, uma pílula para dormir.

Comuniquei o estudo, como a CBS havia solicitado, mas é claro que também revelei o patrocínio por trás da fundação e do estudo, para que os espectadores pudessem avaliar melhor a informação.

Todas as outras emissoras divulgaram a mesma pesquisa, da forma como receberam a informação no “press-release” distribuído pela fundação, sem se aprofundarem no assunto.

Posteriormente, a revista “Columbia Journalism Review”, citou como exemplo, que somente nós, da CBS, havíamos nos preocupado em investigar mais sobre o assunto, revelando o conflito de interesses por trás daquela tão alardeada pesquisa.

Agora vocês talvez podem estar pensando:

“O que eu posso fazer? Pensei ter feito minha boa pesquisa. Como posso separar os fatos das ficções, especialmente se até mesmo jornalistas traquejados por muitos anos de experiência, podem ser tão facilmente enganados?”

Bem, eu tenho algumas estratégias que posso lhes revelar para ajudar a reconhecer sinais de propaganda e “Astroturf”.

Assim que souberem o que procurar, poderão identificar essas coisas, em qualquer lugar.

Primeiro, os sinais de “Astroturf” incluem o uso de linguagem inflamatória, como charlatão, farsante, louco, mentiroso, paranoia, pseudo e conspiração.

Praticantes de “Astroturf” afirmam estarem derrubando mitos, que na realidade não são mitos.

 O uso de linguagem pesada é um bom indicador. Pessoas leem sobre algo ser um mito, provavelmente no site de “fact-checking” Snopes e logo se declaram espertos demais para caírem nisso.

Mas, e se toda a própria noção de mito, for ela própria um mito e você e o Snopes caíram nela?

Fiquem atentos a interesses que atacam um assunto, gerando controvérsia ou atacam as pessoas e organizações nele envolvidas, em vez de abordarem os fatos; isso pode ser apenas “Astroturf”.

E acima de tudo, o “Astroturf” costuma direcionar todas as suas críticas àqueles que denunciam os malfeitos e não aos malfeitores.

Em outras palavras, em vez de questionarem a autoridade transgressora, eles atacam quem questiona a autoridade.


Vocês devem estar começando a enxergar com maior clareza; é como tirar os óculos, limpá-los e colocá-los de volta e vão perceber, pela primeira vez, o quanto eles estavam embaçados.

Não posso resolver todas essas questões, mas espero ter fornecido informações que podem, ao menos, motivá-los a tirarem os óculos e limpá-los, tornando-os consumidores mais conscientes sobre as informações, em uma realidade cada vez mais artificial e patrocinada.

Obrigada

Sharyl Attkisson

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NOTA

O texto acima foi extraído das legendas deste vídeo publicado no Rumble por Gerson Faria. Tem outro vídeo da Sharyl no Rumble, chamado “Como a Mídia Pode Ser Manipuladora”, que pode ser assistido neste link, legendado por mim.

Sobre o Astroturfing

O termo astroturfing deriva-se de AstroTurf, uma marca de grama sintética projetada para dar a aparência de um gramado natural. É um trocadilho com a palavra da língua inglesa “grassroots”, que, em português, é traduzida literalmente como “raízes da grama” e que significa movimentos espontâneos de uma comunidade. A implicação por trás do uso do termo astroturfing é de que não existem movimentos grassroots “verdadeiros” ou “naturais”, mas sim de apoio “falso” ou “artificial”, ainda que alguns de seus praticantes defendam a sua prática.

Na Internet, praticantes de astroturfing utilizam software com o objetivo de disfarçar as suas reais identidades. Às vezes, uma única pessoa opera vários perfis que passam a impressão de que existe um amplo apoio em favor de suas agendas. Alguns estudos sugerem que essa atividade é capaz de alterar a maneira de pensar do público e de criar dúvidas o suficiente para inibir ações.

Luigi Benesilvi

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